Eu estava ensaiando para escrever sobre isso há
algumas semanas. Para dizer a verdade, eu não queria escrever sobre isso. Eu não
queria pensar nisso. Por isso criei um lindo mundo imaginário no qual eu
poderia viver eternamente, sem barreiras e sem um final, com um horizonte invejado
por qualquer pintor de paisagem do século XVIII. Um mundo povoado principalmente
por amor e arte, minhas paixões. Mas igualmente tinha muita névoa, uma névoa
que foi ficando cada vez mais densa, mais espessa. (Gosto de usar sinônimos
seguidos para enfatizar a ideia.)
Mas, como toda neurótica, tenho meus momentos de sensatez e
de lucidez. Parece que as nuvens saíram do caminho do sol e seu brilho
refletido na névoa, que me pareceu à primeira vista deslumbrante, fez com que
os caminhos cobertos se abrissem em luz. Tão grande foi a minha surpresa quando
me deparei com um mundo amorfo que eu via apenas entre a névoa e o achava fascinante.
Não é que o encanto se desfez, pois ele permanece em mim, mas o mundinho
construído, imaginado já não existe mais.
E a relação entre o bem e o mal se confunde nesse novo
mundo. As mais belas paisagens tornaram-se ao mesmo tempo curiosas e
assustadoras. Mas ainda assim eu tive vontade de entrar. Eu sabia que pisaria
em um terreno desconhecido que poderia me engolir, mas eu queria seguir em
frente. No entanto, de súbito, uma barreira de pedras se levantou do chão
arenoso e cobriu meu mundo. Já não era mais uma névoa que o envolvia e não me
deixava ver suas paisagens. Ergueu-se uma obstáculo de pedras entre nós.
Intransponível.
Assim, só me resta colocar um ponto final, pois o caminho não
existe mais. O mundo criado por mim desapareceu, ou melhor, ficou isolado. E eu
preciso procurar um outro caminho para andar.
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