domingo, 3 de junho de 2012

Ensaio sobre a cegueira: parte II

Saramago que me perdoe o plágio, mas não consigo pensar em outro “tema” para aquilo que estou sentindo agora. Nem sei como descrever essa cegueira que tomou conta dos meus olhos, da minha mente e do meu coração.

No citado livro de Saramago, as personagens iam pouco a pouco contraindo uma doença contagiosa, sem escolha. Quem os elegia era a doença, o vírus. Já nesse outro caso, fui eu quem escolheu estar cega. E eu não estive mergulhada em um mar de leite branco, mas na minha própria invenção, na minha própria crença.

Falamos então algumas vezes sobre ter fé e eu constatava o tempo todo que não a tinha. Ironicamente, não percebi que sim, eu a tinha. Eu acreditava nesse “encontro do eu com o outro”. A doença me fez até ter fé. E eu não sou uma pessoa que tem fé. Eu deveria ter desconfiado que estava muito doente.

É claro que essa mania de “ser artista” me faz confundir invenção com crença. Eu inventei sim vários cenários, pintei a tela com as tintas que eu escolhi e com as cores que eu misturei. Criei narrativas, dirigi grande parte do espetáculo. Só não percebi que era ficção.

Realidade e ficção misturaram-se de tal maneira que tive dificuldade de perceber que não era eu quem dirigia o espetáculo. Eu era pouco mais que um marionete nas mãos do diretor. Não. Eu era a atriz principal e contracenava com as sombras da minha crença e da minha memória. A direção é que me dizia o que fazer, como me comportar. Mas talvez a minha fé na arte não me deixara ver o quanto o jogo de cena estava prejudicado.

As luzes não apontavam para os locais certos da cena. Os outros atores saíram e me deixaram fazer um monólogo sem fim, como eu escolhi sem perceber.

No meu delírio, na minha cegueira, eu nunca consegui perceber que estava sozinha no palco e que as luzes eram difusas demais. E que, acima de tudo, eu não sou atriz e nem dançarina.

Vou retornar então, após um pouco de lucidez, a pintar e desenhar, pois não sei atuar. As luzes me confundem, e eu não sei usar todas aquelas máscaras.
As luzes apagaram-se. Final de um ato.

http://www.youtube.com/watch?v=1G4isv_Fylg

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