No citado livro de Saramago, as personagens iam pouco a
pouco contraindo uma doença contagiosa, sem escolha. Quem os elegia era a
doença, o vírus. Já nesse outro caso, fui eu quem escolheu estar cega. E eu não
estive mergulhada em um mar de leite branco, mas na minha própria invenção, na
minha própria crença.
Falamos então algumas vezes sobre ter fé e eu constatava o
tempo todo que não a tinha. Ironicamente, não percebi que sim, eu a tinha. Eu
acreditava nesse “encontro do eu com o outro”. A doença me fez até ter fé. E eu
não sou uma pessoa que tem fé. Eu deveria ter desconfiado que estava muito
doente.
É claro que essa mania de “ser artista” me faz confundir
invenção com crença. Eu inventei sim vários cenários, pintei a tela com as
tintas que eu escolhi e com as cores que eu misturei. Criei narrativas, dirigi grande parte do espetáculo. Só não percebi que era ficção.
Realidade e ficção misturaram-se de tal maneira que tive
dificuldade de perceber que não era eu quem dirigia o espetáculo. Eu era pouco
mais que um marionete nas mãos do diretor. Não. Eu era a atriz principal e
contracenava com as sombras da minha crença e da minha memória. A direção é que
me dizia o que fazer, como me comportar. Mas talvez a minha fé na arte não me
deixara ver o quanto o jogo de cena estava prejudicado.
As luzes não apontavam para os locais certos da cena. Os
outros atores saíram e me deixaram fazer um monólogo sem fim, como eu escolhi
sem perceber.
No meu delírio, na minha cegueira, eu nunca consegui
perceber que estava sozinha no palco e que as luzes eram difusas demais. E que,
acima de tudo, eu não sou atriz e nem dançarina.
Vou retornar então, após um pouco de lucidez, a pintar e
desenhar, pois não sei atuar. As luzes me confundem, e eu não sei usar
todas aquelas máscaras.
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