sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre abraços e caminhos


Mira Schendel, Trenzinho, 1965.

Apesar de tanta dor, hoje eu tive a certeza de que posso estar bem, posso escolher estar feliz. A solidão não está me assustando mais. Estou em casa, sozinha e curtindo esse momento.

Mas eu entendi. Entendi um tanto de coisas. Passagens, cores e caminhos. Entendi que não dá pra preencher o meu vazio. Entendi que posso desfrutar da minha solidão com uma boa leitura ou um bom filme. Ou ainda escrevendo, assim, como tanto gosto.

Eu sempre falei que meu inferno era rosa e azul.
Sempre tão duvidoso, sempre tão ambíguo, sempre tão paradoxal. Sempre tão passional.
Mas o rosa e azul simbolizam mais do que a imaginação geral pode captar. É o feminino e o masculino, o relacionamento. Meu inferno é um relacionamento que ao mesmo tempo é tão bom e tão ruim, me faz rir e chorar, me faz feliz e triste, me faz sentir dor e traz tanta beleza... Me relacionar comigo mesma é meu inferno. E eu sei que isso não é um privilégio meu.

Há dentro de mim um tufão que fica vibrando e bagunçando tudo o que eu com tanto pesar tento arrumar. Tenho problemas em colocar “pontos finais” em muitas coisas. Tenho problemas em lidar com rejeição. Tenho problemas em distinguir o certo do errado. Sempre tive. Então, se fico esbarrando nisso o tempo todo, como vou saber o que fazer? Tenho problemas em aceitar regras, imposições sociais. Mas eu preciso viver nesse mundo. Eu sou mãe. Eu sou pesquisadora. Eu sou professora e eu sou artista. De tudo o que citei, apenas ser artista me dá essa liberdade de transitar entre mundos... De ignorar o certo e o errado. De dispensar os limites.

Então, brigo comigo mesma novamente. O meu grande problema não é conseguir acolher e aceitar meu passado... O meu grande problema é querer entender tudo. Mas eu nem sei mais o que entender.

Mira Schendel, Ondas Paradas de Probabilidade, 1969
(Re-montagem no Museu Reina Sophia, 2008)

Dar um abraço é sempre importante. Receber abraços é sempre muito prazeroso. O abraço é a acolhida. Entender e compreender a mim mesma e ao outro não é algo que dá pra se fazer em alguns minutos. Abraços sim... 

E... Por que a Mira Schendel? É leveza. É vazio que não pede para ser preenchido. É frágil. É  inspiração. É o tempo imensurável. É a impossibilidade de sua apreensão pelo racionalismo.

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