Mira Schendel, Trenzinho, 1965.
Apesar de tanta dor, hoje eu tive a certeza de que posso
estar bem, posso escolher estar feliz. A solidão não está me assustando mais.
Estou em casa, sozinha e curtindo esse momento.
Mas eu entendi. Entendi um tanto de coisas. Passagens, cores
e caminhos. Entendi que não dá pra preencher o meu vazio. Entendi que posso desfrutar
da minha solidão com uma boa leitura ou um bom filme. Ou ainda escrevendo,
assim, como tanto gosto.
Eu sempre falei que meu inferno era rosa e azul.
Sempre tão duvidoso, sempre tão ambíguo, sempre tão
paradoxal. Sempre tão passional.
Mas o rosa e azul simbolizam mais do que a imaginação geral
pode captar. É o feminino e o masculino, o relacionamento. Meu inferno é um
relacionamento que ao mesmo tempo é tão bom e tão ruim, me faz rir e chorar, me
faz feliz e triste, me faz sentir dor e traz tanta beleza... Me relacionar
comigo mesma é meu inferno. E eu sei que isso não é um privilégio meu.
Há dentro de mim um tufão que fica vibrando e bagunçando
tudo o que eu com tanto pesar tento arrumar. Tenho problemas em colocar “pontos
finais” em muitas coisas. Tenho problemas em lidar com rejeição. Tenho
problemas em distinguir o certo do errado. Sempre tive. Então, se fico
esbarrando nisso o tempo todo, como vou saber o que fazer? Tenho problemas em
aceitar regras, imposições sociais. Mas eu preciso viver nesse mundo. Eu sou
mãe. Eu sou pesquisadora. Eu sou professora e eu sou artista. De tudo o que
citei, apenas ser artista me dá essa liberdade de transitar entre mundos... De
ignorar o certo e o errado. De dispensar os limites.
Então, brigo comigo mesma novamente. O meu grande problema
não é conseguir acolher e aceitar meu passado... O meu grande problema é querer
entender tudo. Mas eu nem sei mais o que entender.
Dar um abraço é sempre importante. Receber abraços é sempre
muito prazeroso. O abraço é a acolhida. Entender e compreender a mim mesma e ao
outro não é algo que dá pra se fazer em alguns minutos. Abraços sim...
E... Por que a Mira Schendel? É leveza. É vazio que não pede para ser preenchido. É frágil. É inspiração. É o tempo imensurável. É a impossibilidade de sua apreensão pelo racionalismo.


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