quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Mudanças…



“a casa é nosso canto no mundo”[1]

Sabe o que é mais difícil do que mudar? Aceitar a mudança, ou melhor, aceitar que chegou a hora de mudar.
Difícil mudar de casa, mudar de cidade, mudar a hora de dormir, mudar determinados conceitos, mudar o rumo das sentimentos, mudar… mudar...

Já tenho tantas lembranças, tantas recordações, um arquivo repleto de tudo que vivenciei e guardei. Às vezes sei que arquivo as informações de um jeito meio desorganizado, meio incompleto ou meio exagerado demais. Claro, as lembranças passam por tudo aquilo que me constitui, aquilo que construí e se misturam com aquilo que eu tento, com tanto pesar, descartar e destruir.

Então, chegou a hora de me mudar. Me mudar de casa. Nos últimos anos foram tantas as mudanças que esta seria inevitável. Nos últimos seis anos tudo mudou. Casei, tive um filho, a correria insana da minha vida de mestrado e trabalho se transformou em algo bem diferente, mas não menos intenso (nem menos trabalhoso), tive depressão, entrei no doutorado, me separei, encontrei outro grande amor e o perdi por diversas vezes. Ele também me perdeu constantemente.

Hoje estou quase terminando o doutorado (mais uma mudança que em breve ocorrerá!), sou professora (e gosto muito, cada vez mais!), o amor me abandonou e, por vezes, a esperança também. Mas isso não mudou, isso é circular na minha vida. Agora tenho que me mudar desta casa. Esta casa que guarda em si, nas paredes, em seus cômodos, todas as lembranças dos meus últimos oito anos. Eu disse seis? Não, são oito…

No primeiro capítulo de A Poética do Espaço, Bachelard mostra os valores da intimidade do espaço evidenciando a casa como nosso ponto de referência no mundo, como signo de habitação e proteção. Essa imagem da casa estabelece a comunhão entre memória e imaginação, lembrança e imagem. É como se a memória da primeira moradia acompanhasse-nos durante toda a vida. De certa forma, esta também foi a minha primeira casa.

Terminei a graduação aqui. Morava com duas amigas, depois com uma, depois sozinha, depois com um amor, depois com amor e mais amor (meu filho, amor que não deixou de ser amor), e finalmente ficamos Pedro e eu.
As paredes foram brancas, amarelas, azuis, verdes… Hoje temos todas as cores, menos o branco do início de tudo.
O quarto de Pedro já foi quarto da Priscila, da Camila, escritório. O escritório já foi quarto da Camila e do Pedro e… Meu quarto sempre foi meu quarto. Também foi quarto do Rodrigo por um tempo. É…

Estou com medo de tirar tudo de dentro dos armários, das caixas, das prateleiras. Estou com medo de revolver o passado. Estou com medo de deixar o passado virar passado mesmo. Ou faze-lo retornar.
Estou muito ansiosa.
Estou com medo de mudar de casa, porque mudar de casa não é apenas mudar o local da minha morada. É deixar para trás as paredes sujas e coloridas. É como abrir a caixa de Pandora.

O mito de Pandora explica a criação da primeira mulher. Essa história foi contada pelo poeta grego Hesíodo. De acordo com a obra, o titã Prometeu presenteou os homens com o fogo para que dominassem a natureza. Fogo que ele roubou dos deuses do Olimpo. Zeus havia proibido a entrega desse dom à humanidade, e sua vingança foi criar Pandora, a primeira mulher, e enviá-la à Terra de presente a Epimeteu - irmão de Prometeu. Zeus entregou uma caixa a Pandora, recomendando que ela jamais fosse aberta. Mas Zeus sabia que a curiosidade de Pandora era imensa e sua vingança seria finalmente levada a cabo. Pandora acabou abrindo a caixa, liberando todos os males que os deuses haviam ali colocado: um arsenal de desgraças para o homem, todos os males no mundo. Mas a caixa foi fechada antes que a esperança pudesse sair.

Então… estão por aí todos os males do mundo sem esperança? A esperança é uma dádiva ou o pior dos males que ali restou? É interessante perceber o motivo de a esperança estar presente entre os males trazidos por Pandora à Terra.
Friedrich Nietzsche escreveu, em Humano, Demasiado Humano, que “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”[2].
Pois é…

Comecei escrevendo sobre mudança e mudei para outro tema: a esperança. Concordo com Nietzsche, acredito que a esperança seja um dos piores males, mas... eu sou pessimista.
A esperança nos conduz a um estado de paralisia, a uma sujeição a fantasias. Seria, portanto, a esperança a vingança final de Zeus contra a humanidade, que ousou a usurpar o fogo dos deuses?




[1] Bachelard, Gaston. A Poética do Espaço. In: Os Pensadores XXXVIII. 1. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1974, p.358.
[2] Nietzsche, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Cia de Letras, 2001, p. 63, aforismo 71.

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