Durante algum tempo resolvi me calar e, por respeito e amor,
tirar do ar alguns textos que escrevi.
Hoje decidi que deveria re-completar novamente meus
pensamentos, pois esse respeito só eu procurava ter. Assim, preciso de uma completude que seja apenas minha.
Decidi não criar mais feridas e esperar as que já existem
cicatrizarem. Sei que será um longo processo. Seria tão mais fácil se
pudéssemos tirar da mente aquilo que não desejamos mais, como no filme “Brilho
eterno de uma mente sem lembranças”. Mas sem nunca mais encontrarmos qualquer
vestígio do outro em nós.
Mas somos formados também por aquilo que
vivemos e ficamos com pedacinhos de cada um que fez parte de nossas vidas em nós, ou
melhor, trocamos pedacinhos. Somos um imenso mosaico. Colcha de retalhos. Com peças muito bem
grudadas e receio que arrancá-las à força pode aumentar aquele vazio que sempre
tentamos completar.
Então... Como viver o luto de alguém que está vivo?
Como sempre, muito ansiosa, gostaria de resolver tudo em um
minuto, em uma conversa ou em um olhar.
Nunca estive sozinha. Agora estou. Como eu faço? Cadê aquele
pedacinho de mim que está lá no outro? Se foi.
Não quero de volta. Mas gostaria de retirar todos os
cacos que sobraram dele em mim. Arrancar, extirpar.
Também não posso.
Hoje talvez tenha sido um dos dias mais difíceis da minha
vida. Senti tanta dor que achei que não suportaria. Mas suportei. E falei uma
das coisas mais duras que talvez tenha falado para alguém que ainda vive: você está
morto para mim. Agora eu preciso viver esse luto, luto de alguém que está vivo,
mas esteve aos poucos me matando.
Desisti de entender. Projeções... mentiras, dor. Até aquilo
que eu achava que era bom, na verdade não era. Não foi. Não será mais.
Ficará apenas na memória. Na minha memória. Tenho poucas
lembranças materiais, ele, nenhuma. Rasguei e arranquei aquilo que seria um
pedaço de mim naquele mausoléu de amores.
Eu quero viver novamente. Sorrir sem ter medo, me apaixonar,
voar. Mas... o que eu faço com todo esse sentimento? Terei que sentir, eu sei.
Sentir até que um dia fique esmaecido, como as cores do outono, como uma
pintura antiga e sem restauro...
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