quinta-feira, 15 de março de 2012

Arquivo

Estou obcecada pela idéia de Arquivo.

Ao mesmo tempo em que arquivo memórias tenho que aprender a lidar com a solidão.

Novamente em minha vida misturam-se a arte e a vida. O cotidiano e a pesquisa. O Arquivo como memória e o Arquivo como local de guarda das informações. Às vezes esses significados se misturam, principalmente no meu Arquivo pessoal.

Pesquisar em arquivos é ao mesmo tempo uma tarefa árdua e apaixonante. Semelhante ao trabalho de um arqueólogo, as informações são escavadas como peças pertencentes a uma cultura “de outro tempo”.

O interesse pelo conceito de Arquivo que surgiu durante a 27a. edição da Bienal de São Paulo, em 2006, foi retomado na pesquisa de doutorado: As Bienais Nacionais de São Paulo: 1970-76. Pensar sobre o Arquivo é parte fundamental da pesquisa de doutorado e também da minha vida.

A palavra Arquivo está sempre relacionada à idéia de memória, de conjunto. No entanto, corremos o risco de nos envolvermos demasiadamente com a informação encontrada, ou o discurso aparentemente “verdadeiro”, para pensar nas palavras de Foucalt. De acordo com o filósofo, na prática arqueológica, a verdade mostra-se critério de si e do “falso”. Essa definição impõe discussão sobre seu próprio ponto de partida que, por força da definição, não é verdadeiro nem “falso”.

Trabalhar e viver entre o “verdadeiro” e o “falso” é desvendar novos discursos diariamente. Não se trata de observar o Arquivo apenas como fonte de informação para construção da história, nem de se voltar ao significado de sua origem grega – arkheîon (ter cuidado, dispor do antigo guardando-o para o futuro), mas sim de percebê-lo com o olhar foucaultiano, “de lei do que pode ser dito; o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares.” E, além disso, na percepção de que a cada momento, no presente estabelecido, aquilo que julgamos saber acerca do que somos se interpenetra com aquilo que nos tornamos.

Em Mal de Arquivo, Derrida procura distinguir o arquivo daquilo a que ele foi reduzido: “a experiência da memória e o retorno à origem, o arcaico e o arqueológico, a lembrança ou a escavação, resumindo: a busca do tempo perdido”. Entretanto, sofremos de um mal que parece nos atrapalhar no trabalho de interpretação das “fontes”: a necessidade de registrar tudo, memorizar, monumentalizar e tratar o Arquivo como um locus sagrado. E nesse momento, assim como faz Derrida, utilizo a palavra Arquivo como sinônimo de memória, segundo as impressões freudianas...

 

Um comentário:

  1. Bibliografia:
    DERRIDA, Jacques. Mal de Archivo. . Uma impresión freudiana. Madrid: Trotta,1997.

    FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.

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