domingo, 25 de março de 2012

Luxo, calma e volúpia

Henri Matisse, Luxo, Calma e Volúpia, 1905


Convite à viagem

Minha criança, minha irmã,
Pense na doçura
De irmos para lá, vivermos juntos!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Ao país que se parece contigo!

Os sóis molhados
Desses céus embrumados
Para o meu espírito têm a atração
Tão misteriosa
Dos teus olhos traiçoeiros,
Brilhando através das tuas lágrimas.

Lá, onde tudo é ordem e beleza,
Luxo, calma e volúpia.

Móveis brilhantes,
Polidos pelos anos,
Decorariam nosso quarto;
As flores mais raras
Misturando seus odores
Às sutís essências do âmbar,
Os ricos tetos,
Os espelhos profundos,
O esplendor oriental,
Tudo isso falaria
Em segredo à alma
Sua doce língua natal.

Lá, onde tudo é ordem e beleza,
Luxo, calma e volúpia.

Veja nesses canais
Dormirem essas naves
Onde o humor é vagabundo;
É para saciar
Teu menor desejo
Que elas vêm do fim do mundo.

- Os sóis poentes
Revestem os campos,
Os canais, toda a cidade,
De jacinto e de ouro;
O mundo adormece
Numa cálida luz.

Lá, onde tudo é ordem e beleza,
Luxo, calma e volúpia.

Charles Baudelaire

tradução: Eduardo da Costa
 


Ao observar esse quadro do Matisse, sempre me lembro de dois escritos: esse poema acima do Baudelaire e um trecho do livros "Cartas a um jovem poeta" de Rainer Maria Rilke:

Excesso de Volúpia:

A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência.

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